A diagramação depende do tipo de edição e da complexidade
do livro. Uma Bíblia com notas, por exemplo, exige um trabalho
diferente de uma edição mais simples. Segundo o diretor-presidente da gráfica,
reverendo Erní Seibert, essa etapa pode levar semanas ou meses.
"Uma coisa é a diagramação. Essa diagramação depende da
complexidade, se tem notas ou não, mas leva entre semanas ou meses. Pode ser
alguns meses ou pode ser mais meses, mas é menos de um ano."
Quando se trata de uma tradução que ainda não existe, porém,
o processo é muito mais longo. De acordo com Seibert, uma tradução bíblica
séria não leva menos de cinco anos. "A tradução sempre é o [processo] mais
demorado. Não é uma tradução bíblica séria se levar menos de 5 anos."
O papel precisa ser fino, mas resistente
Depois da preparação do conteúdo, um dos pontos mais
importantes é o papel. A gráfica utiliza o chamado "papel-Bíblia",
com gramatura de 28 gramas por metro quadrado. É um material mais fino e leve
do que o papel offset utilizado em livros comuns, que costuma ter gramatura de
75 ou 90 g/m².
O Brasil não produz esse tipo específico de papel. O
papel usado na produção das Bíblias é comprado da Europa e da Ásia. A
gráfica importa o produto pincipalmente da Finlândia.
"A celulose que compõe tem que ser de fibra longa,
senão ele arrebenta, e isso só o clima frio faz", diz o diretor.
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Gráfica que produz Bíblias em Barueri, Grande SP — Foto: Paola Patriarca/g1
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A gráfica utiliza cerca de 800 quilômetros de papel
por dia. Seibert explica que o prazo para que o papel chegue à gráfica
também interfere no planejamento da produção. A compra pode levar de dois a
quatro meses, considerando a fabricação, o transporte e os procedimentos de
entrada no país.
"Eu encomendo o papel e eles, provavelmente, vão fazer
isso numa tiragem maior do que esses meus 10 mil livros que eu quero. Então, eu
digo: 'São tantas toneladas' até eles fazerem o papel, despacharem, passar pela
aduana do país de origem, passar pela aduana brasileira e chegar aqui. Isso
leva no mínimo dois meses. Se não tiver nenhuma interrupção de guerra, se tiver
navio à disposição, normalmente é de 2 a 4 meses."
Impressão é apenas uma parte do processo
Com o papel disponível e os arquivos preparados, começa a
impressão. A gráfica tem 40 máquinas que conseguem produzir cerca de 27 mil
páginas por minuto, considerando uma Bíblia média com 18 cadernos de 64
páginas.
O processo utiliza máquinas rotativas e planas. Na gráfica,
são quatro rotativas destinadas à impressão de Bíblias. Mas a impressão não
significa que o livro já esteja pronto. Uma Bíblia é formada por diversos
cadernos, que depois precisam ser reunidos para formar o bloco de páginas.
"Uma Bíblia é composta por 12 cadernos, 17, depende do
tamanho da letra, do tamanho da Bíblia. Então, esses cadernos, quando são
impressos, são juntados e formam um bloco."
Cadernos são reunidos e costurados
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Caderno passando pelo processo de costura na gráfica que produz Bíblias em Barueri, Grande SP — Foto: Paola Patriarca/g1
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Depois de impressos, os cadernos passam pelo colecionamento,
etapa em que são reunidos na ordem correta. Em seguida, eles são costurados.
A costura é feita por máquinas automáticas com linha. Um
caderno é unido ao outro, formando um bloco resistente ao manuseio. A escolha
pela costura se dá devido ao peso e à quantidade de páginas da Bíblia.
A gráfica também possui controles para evitar que um caderno
seja colocado no lugar errado ou fique faltando. Máquinas fazem a verificação
durante o colecionamento, enquanto câmeras acompanham a etapa de costura.
Espessura das páginas
Como o papel é muito fino, um dos desafios é garantir que o
conteúdo impresso de um lado não prejudique a leitura do outro. Seibert explica
que as linhas precisam ser posicionadas de forma precisa.
"Como esse papel é muito fino, você consegue ver que do
outro lado tem alguma coisa impressa, e a impressão vai para o outro lado.
Agora, por que você consegue ler aqui sem problemas? Porque uma linha tem que
ser impressa exatamente sobre a linha do outro lado."
Além do posicionamento da impressão, outros elementos
gráficos ajudam na leitura, como o espaçamento entre as linhas e as margens.
Depois das páginas, vem a montagem
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Gráfica que produz Bíblias em Barueri, Grande SP — Foto: Paola Patriarca/g1
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Com os cadernos impressos, revisados e costurados, começa
outra sequência de etapas: colagem da lombada, refile do bloco costurado, corte
dourado ou pintura e impressão das bordas, montagem da capa e encadernação.
A encadernação pode variar de acordo com o modelo da
Bíblia. Capas com zíper podem exigir trabalho manual, enquanto a
encadernação de modelos em brochura e capa dura pode ser feita automaticamente.
Alguns detalhes também são feitos manualmente. É o caso dos
índices colados na lateral das páginas para facilitar a localização dos livros.
"Quando você tem uma Bíblia que fecha com zíper,
muitas pessoas conhecem isso, é tudo manual. Se você tem uma Bíblia que tem o
nome dos livros colados ao lado, para a pessoa achar o livro mais fácil, tudo
isso é feito de forma manual."
A capa também faz parte da produção
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| Capas de Bíblias produzidas em Barueri, na Grande SP — Foto: Paola Patriarca/g1 |
Para o diretor, a capa também tem a função de apresentar ao
leitor o tipo de Bíblia que está dentro dela. Ao longo dos anos, diferentes
modelos passaram a ser produzidos, com capas coloridas, jeans, modelos voltados
para estudo, mulheres e crianças, por exemplo.
"A capa é o primeiro olhar que você lança sobre aquilo.
Então, você olha essa capa e diz que é para um momento especial."
Seibert ressalta que a mudança nas capas acompanhou o
desenvolvimento das artes gráficas e também os diferentes públicos. Segundo
ele, durante muito tempo predominavam capas pretas ou marrons, assim como
acontecia com outros livros.
"A gente dizia: a Bíblia pode ter qualquer cor de capa,
desde que seja preta. Era uma piada que se fazia, porque a maioria das Bíblias
era capa preta. Mas não eram só Bíblias. Todos os livros tinham capa preta ou
marrom."
Um exemplo dessa transformação é a Bíblia com capa jeans,
criada nos anos 1990. "A Bíblia jeans, essa foi mais ou menos nos anos 90
que a gente inventou, porque nós copiamos a ideia dos hispanos. Eles fizeram, e
o jovem amou aquela capa."
Para o diretor, a escolha da capa também precisa considerar
a cultura de quem vai receber o livro. "Se a cultura rejeita aquela cor,
você pode pôr, e [a pessoa] vai rejeitar a Bíblia."
Nem todas as etapas da capa são feitas ali. Segundo Seibert,
modelos que exigem impressão em quatro cores podem ser produzidos em outras
gráficas, já que a unidade de Barueri não possui máquinas desse tipo.
Revisão em todos os processos
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Gráfica que produz Bíblias em Barueri, Grande SP — Foto: Paola Patriarca/g1
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E a preocupação com possíveis erros não termina na
preparação do arquivo. Todos os processos, da tradução à encadernação, passam
por revisões e há um checklist em cada etapa produtiva.
A conferência também é automatizada em parte do processo.
Segundo Seibert, programas específicos conseguem identificar problemas como a
ausência de palavras ou versículos.
"Vamos começar pelo texto, que tem pontos de revisão no
texto. Hoje, isso é tudo feito computadorizado. Então, programas especiais
dizem se faltou um versículo, se faltou uma palavra."
Além disso, há controles durante a montagem dos cadernos.
"Tem outras revisões de cadernos para ver se estão no lugar. Então, tem
uma marca gráfica que faz a leitura cada vez que passa, uma leitura ótica, e
diz: está tudo certo."
A gráfica não faz uma inspeção página por página de cada
exemplar. O controle ocorre durante as diferentes etapas da produção, com
inspeções feitas pelos operadores e por equipamentos que verificam os padrões
de qualidade.
Quando um defeito é encontrado, a tentativa é recuperar o
exemplar durante o próprio processo. Se isso não for possível, o material é
destinado à reciclagem.
Depois de pronta, a Bíblia segue para distribuição
Ao final de todas essas etapas, o livro está pronto para ser
embalado e distribuído. A produção da gráfica abastece o Brasil e também outros
países. Em 2024 e 2025, a unidade produziu, em média, 8 milhões de exemplares
por ano.
Para Seibert, a continuidade da produção está relacionada à
forma como diferentes pessoas, em diferentes culturas, se relacionam com o
livro.
Da gráfica de Barueri para 122 países
A produção da unidade cresceu desde sua criação. Segundo
Seibert, a gráfica foi planejada inicialmente para produzir 2 milhões de
Bíblias por ano, mas a capacidade foi rapidamente ampliada pela demanda.
"Como a gente já fazia 1 milhão de Bíblias para o
Brasil, ela foi planejada para fazer 2 milhões. A gente achava que ia explodir
com 2 milhões em 10, 20 anos, mas em poucos anos já estávamos fazendo 4
milhões."
Hoje, a gráfica produz, em média, 8 milhões de exemplares
por ano com previsão de chegar a 9 milhões neste ano.
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Bíblia em português e japonês — Foto: Paola Patriarca/g1
Desde a fundação, foram produzidas 215 milhões de Bíblias.
Cerca de 30% foram destinadas à exportação para outras Sociedades Bíblicas. Os
exemplares produzidos em Barueri chegam a 122 países. Seibert explica que a unidade acabou se tornando um centro
de produção para outras Sociedades Bíblicas. "Nós somos a maior gráfica dedicada a Bíblias. Tem
outras gráficas que fazem Bíblias e outros livros, e são maiores que essa
gráfica. Mas esse é um centro de produção de Bíblias, Novos Testamentos, e que
a gente faz aqui é produzir exclusivamente Bíblias, por isso somos a maior
neste ramo."
88 idiomas e Bíblia em braille A unidade produz Bíblias em 88 línguas e também em braille.
O português aparece em primeiro lugar entre os idiomas mais produzidos, seguido
pelo espanhol. Seibert conta que a gráfica também recebe trabalhos em
idiomas menos conhecidos e citou como exemplo um Novo Testamento em uma língua
falada por uma comunidade indígena no Pará, cuja tiragem foi de 500 exemplares. Em alguns casos, antes mesmo da impressão é necessário um
trabalho linguístico para registrar e estruturar a língua.
Mesmo com aplicativos, Bíblia impressa continua sendo
produzida A produção também passou a conviver com o crescimento das
versões digitais. A Sociedade Bíblica do Brasil possui aplicativos, mas,
segundo Seibert, o digital não eliminou a procura pela Bíblia impressa.
"O digital afetou de maneira diferente áreas do ser
humano. Quer dizer, eu sempre digo, a maior diferença que você pode ver depois
do digital nas Bíblias é a mudança do catálogo." Segundo ele, o comportamento do leitor mudou e aumentou a
procura por exemplares com letras maiores. E o digital acabou criando formas
diferentes de uso do livro. "Se você quer fazer uma consulta a um texto bíblico, o
que está no Salmo 23, você vai no digital porque é muito mais prático, e o
telefone está com você em qualquer lugar. Mas quando a pessoa quer ler a
Bíblia, quer fazer uma leitura bíblica, uma leitura devocional, em casa ou com
a família ou com o grupo, normalmente as pessoas usam a Bíblia [física]."
Livro mais lido, livro mais distribuído Para o diretor, a Bíblia continua sendo o livro mais
lido e distribuído do mundo porque conhece o ser humano e a alma humana é
retratada ali:
"Os problemas humanos estão ali dentro e por isso
ela continua sendo lida. Não é um livro que você lê e diz: 'Eu já li esse
livro, vou ler outro'. Ela dialoga com o ser humano. Esta é uma das
características da Bíblia, por isso que, nos momentos especiais da vida, como
no luto, em uma guerra, casamento, formatura, nascimento de uma criança, a
pessoa vai na Bíblia e encontra uma palavra que faz sentido." |